[Delano Mothé (o novo articulista de nosso blog) abraçado a Aline Rangel (habitué de nossa “Casa” eletrônica, há mais de ano).]

por Delano Mothé

Cara Maguinólia:

Infelizmente (para seu ego – mas felizmente, para seu Self), devo concordar com toda a análise de Mamin a seu respeito. Ele pode ter se excedido em alguns pontos (assim como você também, com sua ironia acintosa e vitimismo que beira o cinismo – falo-o sem qualquer intenção de ferir, apenas pretendendo ser cirúrgico), mas, a despeito disso, os problemas existem, a meu ver, seja na proporção por ele indicada, seja em menor (não muito menor) medida. Sei que você tem condições de se autossuperar neste sentido, até porque atraiu esta situação para si, não é mesmo?! E, como nada acontece por acaso, conforme bem o sabemos, se surgiu esta oportunidade de um exame mais aprofundado de suas pendências-neuroses (como todos as temos, não raro assustadoras), só me cabe parabenizá-la pelo ensejo bendito e incitá-la a aproveitá-lo ao máximo, colhendo tudo que puder da lição, para se emendar o quanto antes. Acho também que deve realmente procurar Aline, que lhe será bastante sincera e, certamente, reforçando os pontos a serem trabalhados, a seu próprio benefício, muito lhe poderá ajudar nesta fase de difíceis e maiores aprendizados. Uma questão, ressaltando um ponto já aventado de passagem: por que você acha que não pode portar nada (ou muito pouco) do que Mamin apontou? Ou: por que tanto asco (é isso que transparece de sua ironia ferina) com relação às muito naturais deficiências humanas, quando detectadas em você mesma? Seu ego é que, defensiva e desesperadamente, quer negar tudo que lhe ameace o império, sob o qual jamais você (ou quem quer que seja) poderá ser feliz, em níveis mais profundos. Tudo que ele lhe disse existe em todos nós, em maior ou menor grau, mas geralmente muito mais do que podemos suportar perceber, bastando que uma situação propícia o revele – não podemos nos esquecer de que somos seres muito limitados, recém-egressos das zonas de sofrimento e insensibilidade (se é que podemos arriscar dizer que saímos destas?…), infinitamente carentes de depuração, rumo à Eternidade. A energia e mesmo dureza que Mamin (humano, como ele sempre lucidamente se diz) aplicou ao caso têm a ver com o desrespeito sarcástico de sua resposta, quanto com sua necessidade de um alerta mais intenso, de modo a vencer as resistências impostas por seu ego hipertrofiado (e a maioria esmagadora de nós o temos), conforme sua reação bem o revela. Como a tendência é negarmos tudo que não nos convém ao ego exacerbado e nos esquecermos de tudo que já se nos afigura óbvio em períodos de bonança, vale ainda lembrar que Eugênia age em sinergia com ele, invariavelmente, supervisionando-lhe todas as iniciativas, apenas estando mais ou menos presente, em um ou outro momento: o que significa dizer que Ela, tendo permitido que seu porta-voz assim agisse, em algum nível lhe aprova a atitude e, certamente, lhe inspirou a fala mais incisiva, com vistas ao crescimento de todos os envolvidos, cabendo, pois, a cada um extrair o que de melhor puder do ocorrido.

“Ah! Vocês concordam com tudo que ele diz. Têm medo de contraditar seus pontos de vista. Ele é falível como todos nós, ainda que porte uma inteligência brilhante e conhecimento profundo sobre o assunto. Ele foi cruel comigo, não precisava ser tão duro…” – entre outras defesas do ego. Se essas vozes lhe passam pela cabeça (o que seria muito natural, neste momento), volte o foco para si mesma e faça um exame aprofundado quanto às suas verdadeiras intenções, e facilmente verá onde se encontra a razão. (Se percebeu, usei o plural “vocês”, porque, de fato, não só eu endosso as palavras de Mamim, mas também outros irmãos seus em ideal, bastante conscienciosos, que, inclusive, por não estarem diretamente inseridos na problemática, têm melhores condições de avaliar com maior isenção. E não precisamos saber o que ocorreu ou deixou de ocorrer em consultório: independentemente do que haja acontecido, sua reação, por si mesma, revela um ego inflamado a espernear, necessitando de tratamento urgente – o que, repito, se aplica a todos nós, num ou noutro momento de prova maior.) Mamin está sempre aberto a críticas e sugestões, desde que sinceramente motivadas por um impulso do coração. Ironia, ofensa, desrespeito, e todas as formas de desamor, são radicalmente combatidas por ele, graças a Deus, porque só assim conseguimos vencer nossos vícios e condicionamentos autossabotadores e sadomasoquistas, de tão difícil erradicação. Nestes quase quatro anos de convivência íntima, nunca o vi atacar quem quer que fosse ou abater a autoestima de ninguém (ao contrário, só faz elogiar – por vezes, excessivamente, no meu entender – e estimular a todos, indistintamente); testemunhei-o, sim, sempre que a situação o exigia, combater os impulsos egóicos destruidores e autodestrutivos (geralmente, invisíveis para quem os apresenta), em todos nós que privamos da bênção de sua proximidade – pelo que lhe somos eternamente gratos.

Como lhe disse noutras ocasiões, já  passei (passo e continuarei passando, até não mais necessitar de corrigendas, ou seja, quando atingir a angelitude – sem ironias…) por momentos parecidos e até muitíssimo piores, dos quais sempre saí fortalecido e engrandecido (após – é óbvio – um período de amargas lutas internas, no sentido de admitir o pior em mim e me abrir à transformação íntima progressiva), em meus anseios mais subidos, aprendendo a colocar o ego em seu devido lugar: a serviço, quanto possível, do espírito.

Espero que me compreenda a iniciativa aberta e sincera. Entendo o quanto é difícil defrontar o pior em si, mas os frutos lhe poderão ser maravilhosos, na medida em que melhor aproveitar a riqueza das lições do momento.

Que Maria Santíssima nos desperte para a transcendência, hoje e sempre,

Amigo e irmão e ideal,

Dê.


(*) Importante esclarecer que este texto se reporta, não ao primeiro e-mail de Benjamin (o qual endosso inteiramente, sem qualquer ressalva), publicado na segunda-feira próxima passada, no site do Salto Quântico, mas, sim, a uma segunda missiva eletrônica, em que nosso guru precisou usar de toda a energia que lhe inflama o coração idealista, para conter o surto de nossa amiga “Maguinólia”, que, já em resposta ao referido primeiro e-mail lá publicado, redigiu uma peça prenhe de racionalizações, ironia, cinismo, vitimização, em tom altamente acintoso, esquecida de que se dirigia à figura de um Professor de Espiritualidade – que exigiria, no mínimo, respeito.
(Nota do autor)